Pular para o conteúdo
Lucas Montenegro, Cardiologia e Hemodinâmica — página inicial

Válvulas cardíacas

Insuficiência tricúspide

Na insuficiência tricúspide, a válvula do lado direito do coração não fecha direito, e o sangue volta em direção às veias do corpo. Quando o refluxo é importante, causa inchaço nas pernas e na barriga, cansaço e falta de ar. Por muito tempo, quem não podia ser operado ficava só com os remédios. Hoje, existem tratamentos por cateter, sem abrir o tórax.

O que é

Normal: os três folhetos se encontram
Insuficiência: o anel dilata e fica uma falha
A válvula tricúspide vista de cima, fechada. A área clara é por onde o sangue reflui.

A válvula tricúspide fica entre o átrio e o ventrículo direitos e tem três folhetos. Quando ela não fecha bem, parte do sangue volta para o átrio e daí para as veias que trazem o sangue do corpo, como as do fígado, da barriga e das pernas.

Na maioria das vezes, a válvula em si é normal. O problema é que o lado direito do coração dilatou e os folhetos deixaram de se encontrar. Isso acontece, por exemplo:

  • Na fibrilação atrial de longa data, que dilata os átrios
  • Em doenças do lado esquerdo do coração ou dos pulmões, que aumentam a pressão no lado direito
  • Quando o fio de um marca-passo ou desfibrilador interfere no fechamento da válvula

Mais raramente, a causa está na própria válvula, como na febre reumática, na endocardite ou em doenças de nascença.

Sintomas

Como o sangue fica represado nas veias do corpo, os sintomas costumam ser de inchaço e cansaço:

  • Inchaço nas pernas, que piora ao longo do dia
  • Barriga inchada, sensação de estômago cheio e falta de apetite
  • Cansaço e fraqueza
  • Falta de ar aos esforços

Muitas vezes, a pessoa passa a depender de doses cada vez maiores de diurético e a ser internada com frequência para tirar o excesso de líquido. Esse é um sinal de que vale avaliar outras opções de tratamento.

Diagnóstico

O ecocardiograma confirma o refluxo, mede sua gravidade e avalia a força do ventrículo direito e a pressão no pulmão. Essas informações são essenciais, porque um ventrículo direito muito fraco ou uma pressão pulmonar muito alta podem contraindicar o tratamento da válvula.

Para planejar o tratamento por cateter, são usados também o ecocardiograma transesofágico e a angiotomografia. Em alguns casos, o cateterismo do lado direito do coração mede diretamente a pressão no pulmão.

Tratamento

O tratamento começa pelos remédios e pela causa da dilatação. Quando os sintomas continuam, a válvula pode ser tratada por cirurgia ou por cateter.

Remédios

Diuréticos aliviam o inchaço. Também é importante tratar a causa: a insuficiência cardíaca, a pressão no pulmão e a fibrilação atrial, controlando o ritmo sempre que possível.

Cirurgia

A plástica da válvula é o tratamento de escolha quando a pessoa já vai operar outra válvula do coração ou tem baixo risco cirúrgico.

Tratamento por cateter

Clipe tricúspide

Um pequeno clipe aproxima os folhetos no ponto em que eles falham e reduz o refluxo. Em estudo recente, o reparo por cateter somado aos remédios melhorou a qualidade de vida e reduziu as internações por insuficiência cardíaca.

Troca da válvula por cateter

Uma nova válvula é implantada no lugar da tricúspide doente. Na grande maioria dos pacientes, o refluxo desaparece ou fica leve, com melhora da disposição e da qualidade de vida. É uma opção quando a anatomia não favorece o clipe.

Implante de válvulas nas veias cavas

Duas válvulas são implantadas nas veias cavas, que trazem o sangue ao coração. Elas impedem que o refluxo chegue ao fígado e às pernas e aliviam os sintomas, em casos selecionados.

O tratamento por cateter é indicado para quem continua com sintomas apesar dos remédios e tem contraindicação ou risco alto na cirurgia, com anatomia favorável. A decisão é feita em conjunto pelo Heart Team, considerando também a preferência do paciente.

Como é o tratamento por cateter

  1. Avaliação Consulta, ecocardiograma, ecocardiograma transesofágico e angiotomografia para escolher a técnica mais adequada à anatomia: clipe, troca da válvula ou implante nas veias cavas.
  2. Procedimento Feito no hospital, com anestesia. O cateter entra por uma veia da virilha, e o tratamento é guiado por ecocardiograma e raio-X.
  3. Recuperação Sem cortes no tórax, com internação curta.
  4. Acompanhamento Consultas e ecocardiogramas periódicos, com ajuste dos diuréticos e dos outros remédios conforme a melhora.

Perguntas frequentes

Meu ecocardiograma mostra insuficiência tricúspide leve. Devo me preocupar?

Na maioria dos casos, não. Um refluxo leve na tricúspide é muito comum e aparece em boa parte dos ecocardiogramas de pessoas saudáveis. O que exige atenção é a insuficiência importante, principalmente quando causa sintomas.

Posso fazer o tratamento por cateter se o meu coração estiver fraco?

Depende de qual lado está fraco e de quanto. Quando o ventrículo direito está muito enfraquecido ou a pressão no pulmão está muito alta, tratar a válvula pode não trazer benefício. Por isso esses dados são avaliados com cuidado antes de qualquer decisão.

Tenho marca-passo. Isso muda alguma coisa?

Pode mudar. O fio do marca-passo passa pela válvula tricúspide e, às vezes, é a própria causa do refluxo. Ele também pode influenciar a escolha da técnica. A avaliação por imagem mostra a relação entre o fio e os folhetos.

Vou poder parar o diurético?

O objetivo é diminuir o inchaço e a necessidade de remédios e de internações. Muitas pessoas conseguem reduzir a dose do diurético, mas parar por completo depende de cada caso e da doença que causou a dilatação.

O procedimento é coberto pelo convênio?

Os procedimentos são realizados pelo convênio do paciente, nos hospitais onde atuo. A consulta de avaliação é particular, com documentação para solicitar reembolso ao plano.

Avaliação

Se você ou alguém da sua família tem insuficiência tricúspide importante e continua com inchaço e cansaço apesar dos remédios, uma avaliação esclarece se o tratamento por cateter é uma opção.

Referência

Tarasoutchi F, et al. Diretriz Brasileira de Valvopatias – 2026. Arq Bras Cardiol. 2026;123(10):e20260796.