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Lucas Montenegro, Cardiologia e Hemodinâmica — página inicial

Defeitos e estruturas do coração

AVC em pessoa jovem

Quando um AVC acontece antes dos 60 anos, nem sempre a causa aparece nos primeiros exames. Uma das explicações possíveis está no coração: uma pequena passagem entre os átrios, chamada forame oval patente. Quando ela é a responsável, pode ser fechada por cateter, sem cirurgia, para diminuir o risco de um novo AVC.

Por que investigar a causa

Cerca de um em cada três AVCs isquêmicos não tem uma causa definida nos exames iniciais. Em pessoas mais jovens, isso é ainda mais comum, porque as causas habituais, como pressão alta, placas de gordura nas artérias e arritmias, são menos frequentes nessa idade.

Descobrir a causa é o que permite escolher o tratamento certo para evitar um novo AVC. A investigação costuma incluir:

  • Ressonância ou tomografia do cérebro
  • Exames das artérias do pescoço e da cabeça
  • Monitorização do ritmo do coração, em busca de arritmias
  • Ecocardiograma e exames de sangue

Quando nada disso explica o AVC, o próximo passo é procurar um forame oval patente.

O que é o forame oval patente

Átrio direito Átrio esquerdo
Uma pequena passagem entre os átrios pode deixar um coágulo das veias chegar ao lado esquerdo do coração e, de lá, ao cérebro.

Antes do nascimento, todos temos uma abertura na parede entre os dois átrios, as câmaras de cima do coração. Ela é necessária enquanto o bebê está no útero e costuma se fechar nos primeiros meses de vida.

Em cerca de uma em cada quatro pessoas, essa abertura não se fecha por completo e fica como uma pequena passagem em forma de fenda. É o forame oval patente, ou FOP. A grande maioria dessas pessoas nunca terá nenhum problema por causa dele.

Em algumas situações, porém, um pequeno coágulo formado nas veias pode atravessar essa passagem, chegar ao lado esquerdo do coração e seguir até o cérebro, causando um AVC. Entre adultos de 18 a 60 anos, estima-se que o FOP esteja envolvido em cerca de 10% dos AVCs.

Como se descobre

O FOP é procurado com exames que usam soro com microbolhas, injetado na veia do braço. Se as bolhas passam do lado direito para o esquerdo do coração, existe uma comunicação entre os átrios.

  • Doppler transcraniano com microbolhas: detecta as bolhas que chegam às artérias do cérebro
  • Ecocardiograma com microbolhas: mostra a passagem das bolhas dentro do coração
  • Ecocardiograma transesofágico: detalha a anatomia do FOP e da parede entre os átrios, informação importante para decidir o fechamento

Quando fechar

Encontrar um FOP não significa que ele causou o AVC. A decisão de fechar é tomada em conjunto com o neurologista, depois da investigação completa, e considera a idade, o tipo de AVC, o tamanho da passagem e a anatomia da parede entre os átrios.

As diretrizes atuais recomendam o fechamento para pessoas de 18 a 60 anos que tiveram um AVC sem outra causa identificada, quando a análise indica que o FOP é o provável responsável. Nesses casos, os estudos mostraram que o fechamento, somado ao tratamento com remédios, reduz o risco de um novo AVC em comparação com os remédios sozinhos. Acima dos 60 anos, a decisão é individualizada.

Como é o fechamento

  1. Avaliação Revisão de toda a investigação do AVC, em conjunto com o neurologista, e ecocardiograma transesofágico para planejar o procedimento.
  2. Procedimento Feito no hospital, por cateter introduzido por uma veia da virilha. Um dispositivo formado por dois pequenos discos é posicionado na passagem e a fecha, com controle por ecocardiograma.
  3. Recuperação Sem cortes no tórax, com internação curta e retorno rápido às atividades do dia a dia.
  4. Acompanhamento Uso de antiagregantes plaquetários por alguns meses e ecocardiograma de controle para confirmar o fechamento.

Perguntas frequentes

Descobri um forame oval em um exame, mas nunca tive AVC. Preciso fechar?

Na grande maioria dos casos, não. O FOP é muito comum e, sem um AVC ou embolia relacionados a ele, o fechamento não é indicado de rotina. Vale conversar com seu médico sobre o achado, mas sem preocupação excessiva.

Tenho enxaqueca. O fechamento ajuda?

Existe uma associação entre FOP e enxaqueca com aura, mas os estudos não mostraram benefício suficiente para indicar o fechamento apenas para tratar a enxaqueca.

Quais são os riscos do procedimento?

Complicações graves são incomuns. Uma das mais frequentes é uma arritmia chamada fibrilação atrial, que em boa parte dos casos aparece nas primeiras semanas e é passageira. Os riscos e benefícios do seu caso são discutidos na avaliação, antes de qualquer decisão.

Vou precisar tomar remédio depois?

Sim. No primeiro mês, são usados dois antiagregantes plaquetários, a aspirina e o clopidogrel. Depois, segue-se apenas com a aspirina por mais alguns meses. A duração total é definida caso a caso.

Tenho mais de 60 anos. O fechamento pode ser indicado?

Pode, em situações selecionadas. Nessa idade, outras causas de AVC são mais comuns, por isso a avaliação precisa ser ainda mais cuidadosa antes de atribuir o AVC ao FOP.

Avaliação

Se você ou alguém da sua família teve um AVC sem causa definida e um forame oval foi encontrado, uma avaliação esclarece se o fechamento é indicado.

Referências

  1. Caso V, et al. European Stroke Organisation (ESO) guidelines on the diagnosis and management of patent foramen ovale (PFO) after stroke. Eur Stroke J. 2024;9(4):800–834.
  2. Kavinsky CJ, et al. SCAI Guidelines for the Management of Patent Foramen Ovale. JSCAI. 2022;1:100039.